Um pouco como uma tartaruga assustada que se retrai na carapaça quando procura protecção, ou a genitália masculina quando entra numa piscina demasiado fria, a receptividade do cérebro a novas ideias enclausura-se num campo de forças que repele qualquer perspectiva contraditória sobre a praxe, nomeadamente sobre o seu antagonismo a valores universitários que assumem que mãos e joelhos no chão durante horas a fio não é a melhor das posturas humanas.
Esta é a principal conclusão de investigadores da Universidade de Aveiro que nos receberam para verificarmos, em primeira mão (e de pé), como decorre uma conversa típica com um caloiro que se indigna com as sistemáticas tentativas dos investigadores ilegalizarem a praxe, apesar de ninguém ter sequer mencionado uma hipotética proibição.
Sozinho numa sala envidraçada, senta-se o caloiro que será entrevistado; identifica-se como “Caloiro #070”, visto ainda ser dia de praxe. Do meu lado está a investigadora Inês Nunes Videira que me contextualiza do que estou prestes a observar.
Inês Nunes Videira: Isolámos a cobaia na sala de quarentena à nossa frente, tendo esta uma janela para que seja possível manter o contacto visual durante toda a experiência-
Jornal do Lusco-Fusco: Teme que esta “patologia” seja contagiosa?
INV: Ahn? Não, claro que não. Olhe para ele, parece que foi nadar numa fossa séptica, nem de porta aberta se pode estar numa divisão com ele.
JLF: Era o meu segundo palpite.
INV: Após isto, monitorizamos os sinais vitais, gravamos as suas reacções, e recolhemos amostras de sangue antes e após a conversa para análise. Hoje vamos começar com algumas perguntas básicas sobre as suas crenças.
INV: Quais são os seus pensamentos acerca da praxe?
Caloiro #070: Bem, a praxe é fundamental para a integração de membros recém-chegados a uma nova cidade ou estabelecimento de ensino, já para não falar de que se trata de uma importante tradição passada de geração em geração.
INV: E não acha um pouco degradante a forma como é tratado durante as praxes?
#070: Faz parte dos moldes da praxe. Entramos como larvas no ensino superior, somos testados e trabalhados física, psicológica e “fígada-mente” ao longo do primeiro ano até nos apercebermos disso. Ao fim de um ano lectivo nesse casulo, surge uma magnífica borboleta trajada de negro que não passa dias a questionar-se “o que era aquilo que não saía do meu cabelo na última Quarta-Feira”. Mas atenção, isto é tudo a brincar.
INV: E tendo em conta que a universidade é o mais elevado grau de ensino de uma sociedade, continua a fazer sentido que a suposta “nata intelectual” de um país realize uma charada de humilhação com os seus pares?
#070: A praxe serve para integrar, para criar união. Conhecemos imensas pessoas e fazemos amizades que de outra forma não ocorreriam.
INV: E o mesmo pode ser dito de qualquer actividade que envolva mais do que uma pessoa. Aliás, se quiser, posso enumerar umas quantas que não proíbem a comunicação com os seus colegas até aviso contrário.
#070: Claro que existem, mas também tem de ter em conta que a praxe, simbolicamente, prepara-nos para o mundo empresarial.
INV: E acha que faz sentido que os universitários sejam formatados dessa forma? Não deveriam ser os universitários os primeiros a defender uma eventual reformatação do mundo com que se deparam após a conclusão do seu ensino?
#070: Oiça, ninguém é obrigado a ir à praxe, só vai quem quer, logo não faz sentido ilegalizá-la e esta conversa é desnecessária.
INV: A conversa não é desnecessária porque a existência da universidade está intrinsecamente ligada à inovação, ao progresso, à democratização do conhecimento e à consciencialização do passado e presente do mundo, para que estas mentes sejam capazes de perpetuar o que há de bom, e corrigir o que há de errado, em posições de poder acentuado dentro da sociedade. Considere agora o conflito de valores existente com a praxe, enquanto instituição que não só recorre a uma discriminação de valor – ou ausência de valor – de um universitário consoante o seu número de matrículas, e como actividade que celebra a obediência e subordinação a poderes já enraizados no seu ambiente aquando do momento de entrada.
#070: Só percebe quem já viveu a praxe.
INV: Mas eu fui praxada. E, mesmo que não tivesse sido, isso não responde à pergun-
#070: Só percebe quem já verdadeiramente viveu a praxe.
INV: Pronto, atingimos o ponto de ruptura. Normalmente ainda há uma ressalva do quão divertida a praxe pode ser, mas este partiu para uma postura defensiva muito rapidamente. Veja como responde a perguntas que já não estão relacionadas com a praxe: tem fome?
#070: Só percebe quem viveu a praxe.
JLF: Incrível. E a seguir, o que acontece?
INV: Bem, o efeito demora algumas horas a diluir-se no sistema nervoso, e varia de indivíduo para indivíduo. Nessa janela temporal, o caloiro ou praxista tem tempo suficiente para chegar a casa, escrever uma longa publicação nas redes sociais a defender a praxe, e fazer um pequeno insta story a dizer que as pessoas não compreendem que a liberdade funciona para os dois lados. Olhe, este já está a agarrar no telemóvel.
JLF: E porque é que isto acontece?
INV: Uma hipótese determina que a praxe é um pouco como um partidarismo político, ou o clubismo a que tanto assistimos em Portugal. As pessoas associam fortemente a sua própria percepção de identidade a estas entidades e instituições, vendo-se incapazes de analisar a realidade de forma que possa vir a invalidar a imagem do próprio ser. Outra hipótese passa pelo cérebro simplesmente não querer lidar com uma informação que contraria a sua visão do mundo, por não estar preparado, ou até disposto, à mudança, e tudo o que ela possa implicar.
JLF: Muito obrigado pelo seu tempo, acho que é tudo da nossa parte, vai dar uma excelente reportagem.
INV: Já agora, a nossa Universidade está aberta a outro tipo de reportagens…
JLF: Sim, sim, ainda bem, espero que alguém aproveite.
INV: Vê, incomoda-me o mediatismo continuado da praxe. A comunicação social tem um imenso poder na definição dos moldes da discussão relativa ao ensino universitário, e parece que todos os tópicos que chegam à primeira página dos jornais ou são relativos à praxe, ou são rankings de universidades realizados por entidades estrangeiras. O primeiro está esgotado, o segundo apenas serve para afagar o ego patriótico. Onde é que há espaço para uma consciencialização dos problemas financeiros que os investigadores e académicos enfrentam, ou até promoção em horário nobre do que vai surgindo nas nossas Universidades?
JLF: Bem, tem de ter em conta que é isso que as pessoas querem ler. São assuntos relevantes para a actualidade.
INV: E “as pessoas querem ler por ser relevante para a opinião pública” porque a discussão continuada beneficia o sistema de ensino, ou por ser um tema que alimenta discórdia e é de fácil comercialização?
JLF: Acho que só percebe quem vive o jornalismo.
