“Um rádio à prova de água, pouco prático mas ideal para não perder um minuto da Renascença enquanto tomam banho”: 15€. Aplausos.
“Um incrível e desactualizado leitor de DVD’s que terão de perguntar aos vossos netos como utilizá-lo, e mesmo que escrevam num papel vão esquecer-se onde deixaram as instruções”: 24€. Aplausos.
“Um belíssimo barril de petróleo, carregado de 160 litros de energia fóssil”: duas dezenas de feridos ligeiros, e um auto-intitulado de gordo desaparecido. Sem aplausos.
O caos instalou-se no último programa de final de tarde da RTP1, popular entre indivíduos da faixa etária que ainda acha que o teletexto é a forma mais prática para ver a meteorologia do dia seguinte. Ao que foi possível recolher, na origem das reacções explosivas está um barril de petróleo, avaliado em 418€ ao preço de mercado actual.
Após vários palpites a rondar os milhares de euros, foi a concorrente que apostou 8€ que esteve mais próxima do preço real, sem rebentar. Este valor foi encarado com estranheza e prontamente dissecado pelos restantes concorrentes que trouxeram papel e caneta para fazer contas na montra final.
Concluíram que, por esse preço, um litro de petróleo custaria 0,36€, bem longe do 1,67€ de gasolina por litro praticado em Portugal (à data corrente). Mesmo considerando o processo de transformação necessário para obter combustível da matéria-prima, todo o transporte do bem até às gasolineiras, e uma eventual margem de lucro para cada um dos intermediários, as contas continuavam a não fazer sentido por se tratar de uma economia de escala, instalando-se um burburinho ensurdecedor na plateia.
Por esta altura, o locutor tentou terminar o debate, anunciando que a gasolina custa 0,62€ antes de impostos. Apesar de se ter gerado um silêncio momentâneo, foi durante estes breves segundos que todas as pessoas na plateia contemplaram a quantidade de vezes que abastecem o carro por mês.
E tal como um barril, desta feita de pólvora, o presidente da câmara de Apúlia acendeu o rastilho quando exclamou que “era o que mais me faltava, ser roubado e eu a ver, esses bandidos! Tudo a pé na viagem de regresso, esqueçam o autocarro”.
A partir daqui, não há registos videográficos. Os camera men foram subjugados por uma multidão num estado primal que somente procurava descarregar a sua fúria em algo ou alguém porque ninguém merece pagar quase dois terços de imposto em combustíveis quando vai trabalhar.
Algumas testemunhas afirmam que a Lenka e a restante equipa de assistentes, cujos nomes ninguém conhece ao certo, foram vistos a entrar e fugir no Citroën da montra final, o que motivou o arremesso de projécteis – especula-se que se tratavam de enchidos para conquistar o apreço de Fernando Mendes – em direcção ao carro porque “ainda por cima a montra de hoje não era uma lambreta”.
Fernando Mendes foi visto pela última vez sentado ao lado da roda, a baloiçando de trás para frente, antes de ser engulido pela multidão. Consta-se que sussurrava “espectáculo… espectáculo…” a ninguém em específico.
